NUM MOMENTO DE DOR

Início de 1983.
Minh´alma conheceu o abismo:
e eu clamo a Ti, Senhor!
Gemendo e chorando
num vale de lágrimas.
O coração se comprime no peito:
vontade de gritar, de desabafar.
Afinal, nada é nosso:
nem a carne de nossa carne.
nem o sangue de nosso sangue.
– Senhor, ouve a minha voz:
voz embargada,
entrecortada de soluços,
claudicante.
Seja feita a tua vontade!
Mas, se é possível,
afasta de mim este cálice.
Pressinto seu amargor.
Seu odor resseca-me
a língua, a garganta.
Transpiro por todos os poros.
Sinto-me desterrado, sufocado.
É noite.
Noite escura:
no céu,
na terra,
nas entranhas do meu ser.
Como o vigia anseia pela aurora,
minh’alma ainda conta com a claridade:
“– Hay que buscar el amanecer!”
Senhor,
tenho fé.
Em meio à escuridão,
ela é luz interior.
Não me sinto totalmente só.
Mas preciso segurar as pontas.
Juntar o que me resta,
remodelar.
Recompor-me, como puder.
Vai-se um pedaço do meu ser.
Pedaço melhor que todo o meu ser.
Mas ele também quer ser…
Está na hora?
Nunca se sabe.
Mas também é importante
não passar da hora…
Quem sabe a hora é agora?
A vida é um marco
que deixa marcas indeléveis.
– Por que tanto mistério, Senhor?
Mas tenho eu o direito de perguntar?…
E Jó disse a Deus…
Disse o quê?
Não era necessário dizer.
O Autor de tudo,
inexplicável algoz de todos,
perscruta os corações,
sonda os rins.
Senhor, não entendo.
Também nunca entendi
– será que é para entender? –
teu Filho crucificado.
Talvez deva chorar
sobre meu egoísmo,
meu individualismo,
minha omissão.
Talvez não tenha compartilhado
plenamente,
totalmente,
os onze anos de sua companhia.
Remorso?
E quem não o sente?
Ele era criança
e eu me sentia adulto.
Pobres adultos!
E agora ele se vai.
Colégio Militar interno.
Disseram que o internato ia acabar.
Mas não acabou.
Um internato diferente do meu tempo,
mas sempre internato.
Foi ele que assim o quis.
Aos onze anos
não o vejo mais como criança.
Mas também não é adulto.
Seu coração bate forte, destemido.
O meu é que está dilacerado.
De sua mãe, nem se fale!
Sua irmãzinha,
esta, sim, é criança.
Sente a dor,
mas não sente as dores do mundo.
– Senhor,
uma coisa te peço:
Se não tiver palavras e atos
para encorajar,
que pelo menos minha fraqueza
não contamine os fortes.
Que ele seja feliz!
Eu,
mamãe,
sua irmãzinha,
semi-órfãos de seu convívio,
seguremo-nos as mãos.
A vida continua.

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