O QUE É UM PROBLEMA?

Prof. Antônio de Oliveira

Em O retorno do jovem príncipe, de A.G. Roemmers, à semelhança d’O pequeno príncipe, a conversa gira em torno de indagações, sendo a primeira delas:– O que é um problema? Faço uma pausa. Instintivamente, fecho meu Kindle. E eis que me ponho a pensar… E o problema é: O que é um problema?

Do grego, próblema, vocábulo proparoxítono, passando, pelo latim, a paroxítono, problema me parece ser uma questão que postula uma resposta ou uma dificuldade que requeira uma solução.

Problema e solução vêm tão interligados que às vezes se identifica a solução como se ainda fosse o problema. Por exemplo, em vez de dizer: Estou vivendo um problema de doença, dizer: Estou com um problema de saúde. Ora, saúde é solução, não problema.

A vida é um processo contínuo de solução de problemas. Nem sempre bem equacionados e diagnosticados. Tampouco bem solucionados. É a vida…

No dia a dia, problema significa algo que vai mal, algo que nos causa desconforto. Há quem ache o viver um problema, se não for o grande problema. Na verdade, viver é uma arte e arte requer habilidade. Habilidade “sui generis”. A maior delas. Há os que acham que o viver é um problema, sim, mas para ser vivido, não para ser resolvido.

Reabro o Kindle, retomo a leitura e dou de cara com esta explicação:

“Um problema é como uma porta da qual você não tem a chave”.

Para mostrar que o problema não é de hoje, recorro ao filósofo Sêneca, século I, e encontro uma pista na expressão “consilio manuque”, literalmente, com a cabeça e as mãos. O escritor romano se referia aos grandes generais, que devem ter discernimento para deliberar e coragem para executar.

É isso aí! Qual era mesmo o problema? Aliás, problemas atuais são menos específicos. Vale considerá-los na sua abrangência.

Mas quem sou eu para falar de problemas? Quem entende mesmo de solução de problemas é o Dadá Maravilha, que disse: “Não me venham com a problemática que eu tenho a solucionática”.

MAIORAIS DA CRÔNICA

Prof. Antônio de Oliveira

Fala-se em maiorais do samba, maiorais disso e daquilo…

O gênero “crônica” preenche espaço já no Antigo Testamento.

Em O Nascimento da Crônica, Machado de Assis diz que houve crônicas antes de Esdras. antes de Moisés, antes de Abraão, Isaque e Jacó, antes mesmo de Noé.

Mas não vamos tão longe no tempo. Tomemos “maioral” na acepção referente àquele ou àquela que se distingue dos outros pela sua superioridade. Consideremos apenas alguns, já de si amostras representativas.

Sabendo, de antemão, que a seleção de cronistas aqui apresentada é uma seleção, portanto, comportando outras seleções, tantos são os nomes de cronistas brasileiros que me afloram à memória ao andar da carruagem.

Para começar, o clássico Machado de Assis, carioca. Também cariocas, Arnaldo Jabor, Lima Barreto, João do Rio, Stanislaw Ponte Preta, Vinicius de Moraes e Cecilia Meireles. Puxando a brasa para minha sardinha, os mineiros Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Alves. A ucraniana Clarice Lispector, naturalizada brasileira. O baiano João Ubaldo Ribeiro. A cearense Raquel de Queirós. Os pernambucanos Nelson Rodrigues, cronista de costumes, e Antônio Maria. O cronista por excelência, Rubem Braga, capixaba. Mário Quintana, gaúcho. Dentre os paulistas, Adoniran Barbosa, com suas crônicas musicais, Plínio Marcos e Alcântara Machado.

O espaço aqui é preestabelecido de modo que não comporta toda a plêiade de cronistas, região por região. Por falar em região, cada região muito deve, de seus registros e memórias, aos cronistas locais, no espeço e no tempo.

O historiador conta história com isenção; o cronista, com emoção. Quem conta um conto aumenta um ponto. O poeta pontua o tempo no momento da inspiração.

Por fim, o metalinguista investiga e identifica as estruturas e relações presentes naquele determinado gênero literário. E coloca à nossa disposição, via crítica literária, os sabores preferidos.

O CRONISTA DEVE SABER MANEJAR AS PALAVRAS

O cronista é mesmo um escrevinhador do tipo oleiro.

Um ludoterapeuta de palavras.

Sim, a comparação faz sentido.

O resultado de modelagens com as palavras pode resultar numa obra de arte. Embora alguns achem que a crônica seja um gênero literário menor.

Puxando a brasa para a minha sardinha, digo: Ledo engano!

Grandes escritores e poetas foram também cronistas.

Rubem Braga, ao que consta, só escreveu crônicas e, nesse gênero, se notabilizou como grande escritor.

Diante da Queda do Iguaçu, o cronista vive o momento:

“Chegamos, e então tudo aquilo está acontecendo de maneira urgente, o mato, a água, a pedra, o ar.”

Paulo Mendes Campos, n’Um domingo, foi capaz de desvendar a magia de uma lagoa “muda e fechada”, que “compreende as nossas pequeninas desventuras, o efêmero que nos fere”.

Não resisto a mais uma citação: “Toda a família se extasiou perante a vastidão do oceano, o infinito vivo, esse horizonte sem contorno que parecia nascer dentro de nós”. (Mia Couto)

Manejar as palavras como um samurai maneja sua espada. A propósito, consta que, no século XIV, Guilherme Ockham, inglês de origem e franciscano, já então em Paris, dirigira ao príncipe as seguintes palavras: “Imperator, defendas me gladio, ego te defendam calamo”. O imperador o defendesse com a espada que ele defenderia Sua Alteza com a pena, escrevendo.

Escrevendo…

Segundo Carlos Drummond de Andrade, “escrever é a arte de cortar palavras”.

Mas tem uma coisa. Se se trata de texto literário, literatura é para degustar, saborear, sorver a arte. Ah! Não apenas consumir o produto. Pergunto:

– Será que fui capaz de formatar qualquer coisa, digamos, uma crônica?

Com a palavra…

Ah! Manejar as palavras não sem antes congelar, aprisionando-a, a inspiração que vem de dentro de nós. Onde habita o sentimento.

VIDA, DESAFIO CONSTANTE

Prof. Antônio de Oliveira

Quando preenchemos uma ficha de check-in num hotel, no item nacionalidade, entendemos tratar-se do país de nascimento, terra natal, pátria.

Em latim, “terra patrum” significa terra mãe, território dos pais.

Quando alguém morre, não raro se ouve dizer: – Foi juntar-se aos seus!

Em latim, foi “ad patres”. Al di là…

Na verdade, existe uma correlação entre o viver e o morrer, sendo ambos, o viver e o morrer, considerados artes; “ars vivendi” e “ars moriendi”.

“Os mortos não estão ausentes: permanecem vivos, falam-nos nos sonhos, pesam-nos na consciência.” (Mia Couto, A confissão da leoa)

Estamos sempre a conviver com Eros e Thánatos, deus da morte, filho da Noite e Hipnos.

Eternizamos o além pela fé, pela arte, pela poesia, pelas boas obras. Imortalizam-se famosos com grandes monumentos e suntuosos mausoléus.

A vida parece um sonho. Um sonho que nos mantém acordados. Sonho fantástico como o desenrolar de uma novela. “A vida é mesmo assim, dia e noite, não e sim.”

Todo ser vivente, desde o arbusto ao mais robusto, vive perigosamente. Tem seus momentos de vacilo como qualquer equilibrista na corda bamba.

Noites traiçoeiras… A ventania arranca telhados, a chuva torrencial provoca inundações. Calor abrasador ou o frio padecente, barragens que se rompem. Covid-19. Avassaladora.

Enfim, viver é um desafio constante. O que se quer de nós é coragem. Virtude da força interior, coragem é virtude do coração que nos faz lutar pelo nosso aperfeiçoamento, dia após dia.

Coragem, do latim, “coraticum”, que significa agir com o coração.

Opõe-se à covardia e ao egoísmo. É aliada do livre-arbítrio, da superação dos medos e da firmeza no agir. Enquanto é tempo.

No trem da vida. o apito, antes de cada estação, mais que ao ouvido, anuncia ao coração das pessoas que o desafio que estava longe vai se tornando cada vez mais perto. A fumaça da locomotiva fica para trás na linha do tempo. “O trem que chega é o mesmo  trem da partida.” E vamos nessa…

A CULPA É SEMPRE DO OUTRO

Para Eva, a culpa foi da serpente.
Para Adão, a culpa foi de Eva.
Para o governo, a culpa é da oposição.
Para a oposição, a culpa é do governo.
Para o pedestre, o motorista é imprudente.
Para o motorista, o pedestre não presta atenção.
Para os pais, os filhos são insubordinados.
Para os filhos, os pais são caretas.
Para mim, o inferno são os outros.
Para os outros, o azucrinante sou eu.
Para a esquerda, a culpa é da direita.
Para a direita, a culpa é da esquerda.
Para o professor, o aluno não se interessa.
Para o aluno, o professor não sabe ensinar.
Para o ateu, o crente é um fanático.
Para o crente, o ateu é um infiel.
Para as mulheres, os homens são todos iguais.
Para os homens, as mulheres são volúveis.
Para o patrão, o empregado não produz.
Para o empregado, o patrão é um explorador.
Para os sujismundos, limpeza é problema da Prefeitura.
Para os garis, o povo não tem consciência nem colabora.
Para o pichador, pichar é obra de arte competitiva.
Para quem encontra a parede pichada é vandalismo.
Para o socialista, a culpa é do capitalismo.
Para o capitalista, o socialismo é uma ameaça à propriedade.
Para uns, Lula é o cara.
Para outros, Lula é mafioso.
Para o manifestante, a culpa é da polícia,
Para a polícia, a culpa é do manifestante.
Pra uns, a culpa é da elite.
Para outros, a culpa é da classe média.
Para uns, impeachment é golpe.
Para o STF é constitucional.
Para uns… Para outros…
Difícil conviver com as diferenças.
Ontem, um alimento estava em baixa.
Hoje, esse mesmo alimento está em alta.
Amanhã…
Ontem era brega usar calça pega-frango.
Hoje a moda chique é a brega de ontem.
Ontem, no topo da popularidade.
Hoje, penando no inferno astral.
Ontem, zangue-zalangue.
Hoje… Beach Park.
Ontem, mensagem a Garcia.
Hoje, WhatsApp.
Ontem… Hoje…

Para a socióloga italiana Donatella Della Porta, quem se envolve em corrupção não se considera criminoso. Não diz propina, mas ‘doação’.

Não chama quem corrompe de corrompido, mas de ‘amigo’.

A CAMINHO DE EMAÚS

Hoje resolvi revisitar uma página, em francês, de François Mauriac. Não para fazer uma tradução ao pé da letra, tampouco um plágio, mas para fazer uma releitura pessoal a partir do texto desse notável escritor. Aos cristãos não nos é estranho o encontro de Jesus com dois discípulos que caminhavam, desiludidos após a morte do Mestre, rumo a Emaús. Mauriac indaga: Quem porventura nunca passou por esse caminho num entardecer quando tudo parecia perdido? O Cristo estava morto em nós. A Ele preferimos o mundo, os filósofos, os falsos sábios, os líderes carismáticos, os famosos que a mídia e a propaganda assim os têm. Ou, então, o poder, a fama, o mando, o dinheiro, a propina…

Pois bem. Tudo parecia frustrante. Nessa altura me lembro de Numa Tarde de Domingo, de Michel Quoist, em Poemas para Rezar… e, de Eliot, “… When the evening is spread out the sky”. Ilações! Aparentemente por acaso, um desconhecido passa a nos fazer companhia. Ao cair da tarde, num gesto hospitaleiro, resolvemos convidá-lo a passar a noite conosco: “Reste avec nous, car le jour baisse…”

Naquela hora, a noite só faz escurecer. Parece que aí termina a vida, tudo acaba. A infância parece mais distante que o começo do mundo. Mas eis que uma porta se abre. O momento é eucarístico. Hora da ceia, hora da fração do pão, “fractio panis”, como era chamada a missa nos primórdios. Na Catacumba de Priscilla, em Roma, um afresco, da primeira metade do século II, ao qual foi dado justamente o nome de “Fractio Panis”, retrata seis homens e uma mulher a uma mesa em semicírculo.

Ambiente de despojamento, chão de terra batida. Nem todo encontro é casual. Uma hora é hora do Encontro. Quando não nos passa despercebido. “A vida é feita de encontros, embora haja tantos desencontros pela vida”. (Vinicius de Moraes). A vida é feita de encontros, um Encontro pode fazer a nossa vida. Um “E” maiúsculo faz a diferença. Nessas horas, nosso coração como que dá sinal positivo de escuta.

Sinais… Ah, os sinais! Sinais e ilações, binômio investigativo e de autoajuda. Será?

NUM MOMENTO DE DOR

Início de 1983.
Minh´alma conheceu o abismo:
e eu clamo a Ti, Senhor!
Gemendo e chorando
num vale de lágrimas.
O coração se comprime no peito:
vontade de gritar, de desabafar.
Afinal, nada é nosso:
nem a carne de nossa carne.
nem o sangue de nosso sangue.
– Senhor, ouve a minha voz:
voz embargada,
entrecortada de soluços,
claudicante.
Seja feita a tua vontade!
Mas, se é possível,
afasta de mim este cálice.
Pressinto seu amargor.
Seu odor resseca-me
a língua, a garganta.
Transpiro por todos os poros.
Sinto-me desterrado, sufocado.
É noite.
Noite escura:
no céu,
na terra,
nas entranhas do meu ser.
Como o vigia anseia pela aurora,
minh’alma ainda conta com a claridade:
“– Hay que buscar el amanecer!”
Senhor,
tenho fé.
Em meio à escuridão,
ela é luz interior.
Não me sinto totalmente só.
Mas preciso segurar as pontas.
Juntar o que me resta,
remodelar.
Recompor-me, como puder.
Vai-se um pedaço do meu ser.
Pedaço melhor que todo o meu ser.
Mas ele também quer ser…
Está na hora?
Nunca se sabe.
Mas também é importante
não passar da hora…
Quem sabe a hora é agora?
A vida é um marco
que deixa marcas indeléveis.
– Por que tanto mistério, Senhor?
Mas tenho eu o direito de perguntar?…
E Jó disse a Deus…
Disse o quê?
Não era necessário dizer.
O Autor de tudo,
inexplicável algoz de todos,
perscruta os corações,
sonda os rins.
Senhor, não entendo.
Também nunca entendi
– será que é para entender? –
teu Filho crucificado.
Talvez deva chorar
sobre meu egoísmo,
meu individualismo,
minha omissão.
Talvez não tenha compartilhado
plenamente,
totalmente,
os onze anos de sua companhia.
Remorso?
E quem não o sente?
Ele era criança
e eu me sentia adulto.
Pobres adultos!
E agora ele se vai.
Colégio Militar interno.
Disseram que o internato ia acabar.
Mas não acabou.
Um internato diferente do meu tempo,
mas sempre internato.
Foi ele que assim o quis.
Aos onze anos
não o vejo mais como criança.
Mas também não é adulto.
Seu coração bate forte, destemido.
O meu é que está dilacerado.
De sua mãe, nem se fale!
Sua irmãzinha,
esta, sim, é criança.
Sente a dor,
mas não sente as dores do mundo.
– Senhor,
uma coisa te peço:
Se não tiver palavras e atos
para encorajar,
que pelo menos minha fraqueza
não contamine os fortes.
Que ele seja feliz!
Eu,
mamãe,
sua irmãzinha,
semi-órfãos de seu convívio,
seguremo-nos as mãos.
A vida continua.

NÃO ACREDITO Monólogo da Descrença

Eu não acredito no Brasil enquanto houver tantos marajás e maranis do serviço público, nos três poderes e nos três níveis, municipal, estadual e federal.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver supersalários para uma elite do serviço público, além de tantos penduricalhos a encherem contracheques de cima a baixo.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver foro privilegiado e imunidade parlamentar, sinônimos de impunidade.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver aposentadorias precoces, depois de tão pouco tempo e de tão elevados proventos para as elites do serviço público, nos três níveis.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver tanta desigualdade social, tamanhas corrupções institucionalizadas, tantos descamisados.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver obras inacabadas, mal acabadas, superfaturadas, falta de atendimento decente à saúde pública, escolas insuficientes e, se existentes, sem manutenção e sem recursos alocados.

Eu não acredito no Brasil enquanto não se der o devido valor aos professores, ao pessoal da área da saúde e da segurança pública, à cultura.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver estradas esburacadas, transporte público desumano, vazamentos de rejeitos com todas as suas nefastas consequências para a vegetação e para o ser humano.

Eu não acredito no Brasil enquanto os ministros do STF não forem escolhidos por concurso e histórico de vida de conduta ética.

Eu não acredito no Brasil enquanto rios dantes navegáveis, hoje cloacas, não não forem recuperados

Eu não acredito no Brasil enquanto madeireiros irresponsáveis desmatarem indiscriminadamente nossas matas visando ao lucro ilimitado.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver tantos motoristas a serviço de representantes públicos, auxílio-moradia, carro oficial, combustível, seguranças a fartar, cabeleireiros de montão, engraxates, chusmas de assessores, propina.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver brigas partidárias e ideológicas e o povo for considerado apenas um mero detalhe.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver rompimento de barragens soterrando centenas de pessoas, animais e plantas deixando flora e fauna devastadas, e ninguém é punido.

Eu não acredito… ?!

Perdão, Senhor!

Confiteor!…

Amar é…

não descrer.

PARA MEDITAR…

Para desvendar o universo há que ter a persistência de um cientista.
Para sentir o mundo há que ter alma de poeta.
Para perscrutar os rins e os corações há que ser Deus.
Para subir ao alto das montanhas há que ter alma de alpinista.
Para captar a afinação do mundo há que ter alma de artista.
Para suportar as dores há que ter resignação.
Para viver bem é preciso ter fé na vida, estranha mania de acreditar.
Para ligar o céu e a terra é preciso ser ponte.
Para conciliar a dor e a alegria é preciso ter manha.
Para conhecer o outro é preciso conhecer-se a si mesmo.
Para descobrir todas as cores é preciso transpor o arco-íris.
Para fazer alguma coisa na vida é preciso ter sonho sempre.
Para mover o mundo é preciso uma alavanca e um ponto de apoio.
Para vencer a ambição é preciso moderação.
Para colher é preciso plantar.
Para abrir caminho é preciso andar.
Para abrir a mente é preciso estudar, ouvir e dialogar.
Para ver o sol nascer é preciso madrugar.
Para contemplar o luar há que olhar as estrelas.
Para acertar o alvo é preciso não açoitar o ar.
Para ser político há que pensar no povo da dita e desdita democracia.
Para ser crítico há que analisar o trabalho que deu para fazer.
Para ser justo é preciso não posar de feitor de obras feitas.
Para ser religioso há que respeitar o não religioso.
Para dar palpite há que ancorar o ponto de vista.
Para ser professor há que aprender e de repente ensinar.
Para ser pai ou mãe não há apenas que ter filhos: é preciso ser.
Para ser é preciso não ter em demasia.
Para mandar é preciso saber obedecer.
Para entender a vida é preciso soletrar: v-i-d-a.
Para voar é preciso ter asas… e querer.
Para contemplar a paisagem é preciso horizonte.
Para orar é preciso fazer da vida uma oração.
Para enfrentar abrolhos é preciso abrir os olhos.
Para ver é preciso ter olhos de ver.
Para rever conceitos desconstruir é preciso.
Para ficar extenuado basta não fazer nada…
Olhe! Pare!
Para parar é preciso frear…

PONTO E VÍRGULA

O uso correto da vírgula [,] é difícil; já o do ponto e vírgula [;] …

Luiz Fernando Veríssimo declarou que jamais havia usado um ponto e vírgula e que esse nunca lhe fizera falta. Usá-lo é um sinal, além de pontuação, de refinamento, encantamento, glamour. Lê-se, em Mário Quintana: “Que moça culta a Maria Eduarda: ela usa ponto e vírgula”. Na verdade, é chique usar ponto e vírgula, mas, para empregá-lo corretamente, só mesmo revisitando Machado de Assis.

Costuma-se definir ponto e vírgula como sinal de pontuação que indica uma pausa mais forte que a da vírgula e menos forte que a do ponto final. Seria o mesmo que dizer, em termos musicais, que a pausa de semínima dura o dobro da de colcheia, bem como a metade da mínima. Se for possível estabelecer uma relação da pausa musical com a da entonação, a pausa de colcheia corresponderia à vírgula, a pausa de semínima ao ponto e vírgula e, finalmente, a pausa de mínima ao ponto final. Com efeito, em música, pausa é cada um dos sinais gráficos que indicam o valor, isto é, a duração dos silêncios de um trecho musical e aos quais correspondem as notas.

Os gestos do maestro, batuta na mão, acenam para esses detalhes. Aliás, por falar em música, os sinais de pontuação têm tudo a ver com a entonação a partir da escrita, assim como uma partitura indica notas e pausas correspondentes. Cada nota é representada pelo seu sinal gráfico convencional, que representa, ao mesmo tempo, a altura (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si) e a duração de um som musical (breve, semibreve, mínima, semínima, colcheia, semicolcheia, fusa, semifusa). A cada nota corresponde um silêncio em um peça de música, sendo a pausa a notação do silêncio.

Não sendo ponto final, em enumerações, um ponto e vírgula indica que sempre cabe mais um item. Otto Maria Carpeaux escreveu ensaios; Carlos Drummond, poesias. Do ponto de vista melódico, o ponto e vírgula representa uma pausa, pois o show deve continuar.