A CULPA É SEMPRE DO OUTRO

Para Eva, a culpa foi da serpente.
Para Adão, a culpa foi de Eva.
Para o governo, a culpa é da oposição.
Para a oposição, a culpa é do governo.
Para o pedestre, o motorista é imprudente.
Para o motorista, o pedestre não presta atenção.
Para os pais, os filhos são insubordinados.
Para os filhos, os pais são caretas.
Para mim, o inferno são os outros.
Para os outros, o azucrinante sou eu.
Para a esquerda, a culpa é da direita.
Para a direita, a culpa é da esquerda.
Para o professor, o aluno não se interessa.
Para o aluno, o professor não sabe ensinar.
Para o ateu, o crente é um fanático.
Para o crente, o ateu é um infiel.
Para as mulheres, os homens são todos iguais.
Para os homens, as mulheres são volúveis.
Para o patrão, o empregado não produz.
Para o empregado, o patrão é um explorador.
Para os sujismundos, limpeza é problema da Prefeitura.
Para os garis, o povo não tem consciência nem colabora.
Para o pichador, pichar é obra de arte competitiva.
Para quem encontra a parede pichada é vandalismo.
Para o socialista, a culpa é do capitalismo.
Para o capitalista, o socialismo é uma ameaça à propriedade.
Para uns, Lula é o cara.
Para outros, Lula é mafioso.
Para o manifestante, a culpa é da polícia,
Para a polícia, a culpa é do manifestante.
Pra uns, a culpa é da elite.
Para outros, a culpa é da classe média.
Para uns, impeachment é golpe.
Para o STF é constitucional.
Para uns… Para outros…
Difícil conviver com as diferenças.
Ontem, um alimento estava em baixa.
Hoje, esse mesmo alimento está em alta.
Amanhã…
Ontem era brega usar calça pega-frango.
Hoje a moda chique é a brega de ontem.
Ontem, no topo da popularidade.
Hoje, penando no inferno astral.
Ontem, zangue-zalangue.
Hoje… Beach Park.
Ontem, mensagem a Garcia.
Hoje, WhatsApp.
Ontem… Hoje…

Para a socióloga italiana Donatella Della Porta, quem se envolve em corrupção não se considera criminoso. Não diz propina, mas ‘doação’.

Não chama quem corrompe de corrompido, mas de ‘amigo’.

A CAMINHO DE EMAÚS

Hoje resolvi revisitar uma página, em francês, de François Mauriac. Não para fazer uma tradução ao pé da letra, tampouco um plágio, mas para fazer uma releitura pessoal a partir do texto desse notável escritor. Aos cristãos não nos é estranho o encontro de Jesus com dois discípulos que caminhavam, desiludidos após a morte do Mestre, rumo a Emaús. Mauriac indaga: Quem porventura nunca passou por esse caminho num entardecer quando tudo parecia perdido? O Cristo estava morto em nós. A Ele preferimos o mundo, os filósofos, os falsos sábios, os líderes carismáticos, os famosos que a mídia e a propaganda assim os têm. Ou, então, o poder, a fama, o mando, o dinheiro, a propina…

Pois bem. Tudo parecia frustrante. Nessa altura me lembro de Numa Tarde de Domingo, de Michel Quoist, em Poemas para Rezar… e, de Eliot, “… When the evening is spread out the sky”. Ilações! Aparentemente por acaso, um desconhecido passa a nos fazer companhia. Ao cair da tarde, num gesto hospitaleiro, resolvemos convidá-lo a passar a noite conosco: “Reste avec nous, car le jour baisse…”

Naquela hora, a noite só faz escurecer. Parece que aí termina a vida, tudo acaba. A infância parece mais distante que o começo do mundo. Mas eis que uma porta se abre. O momento é eucarístico. Hora da ceia, hora da fração do pão, “fractio panis”, como era chamada a missa nos primórdios. Na Catacumba de Priscilla, em Roma, um afresco, da primeira metade do século II, ao qual foi dado justamente o nome de “Fractio Panis”, retrata seis homens e uma mulher a uma mesa em semicírculo.

Ambiente de despojamento, chão de terra batida. Nem todo encontro é casual. Uma hora é hora do Encontro. Quando não nos passa despercebido. “A vida é feita de encontros, embora haja tantos desencontros pela vida”. (Vinicius de Moraes). A vida é feita de encontros, um Encontro pode fazer a nossa vida. Um “E” maiúsculo faz a diferença. Nessas horas, nosso coração como que dá sinal positivo de escuta.

Sinais… Ah, os sinais! Sinais e ilações, binômio investigativo e de autoajuda. Será?

NUM MOMENTO DE DOR

Início de 1983.
Minh´alma conheceu o abismo:
e eu clamo a Ti, Senhor!
Gemendo e chorando
num vale de lágrimas.
O coração se comprime no peito:
vontade de gritar, de desabafar.
Afinal, nada é nosso:
nem a carne de nossa carne.
nem o sangue de nosso sangue.
– Senhor, ouve a minha voz:
voz embargada,
entrecortada de soluços,
claudicante.
Seja feita a tua vontade!
Mas, se é possível,
afasta de mim este cálice.
Pressinto seu amargor.
Seu odor resseca-me
a língua, a garganta.
Transpiro por todos os poros.
Sinto-me desterrado, sufocado.
É noite.
Noite escura:
no céu,
na terra,
nas entranhas do meu ser.
Como o vigia anseia pela aurora,
minh’alma ainda conta com a claridade:
“– Hay que buscar el amanecer!”
Senhor,
tenho fé.
Em meio à escuridão,
ela é luz interior.
Não me sinto totalmente só.
Mas preciso segurar as pontas.
Juntar o que me resta,
remodelar.
Recompor-me, como puder.
Vai-se um pedaço do meu ser.
Pedaço melhor que todo o meu ser.
Mas ele também quer ser…
Está na hora?
Nunca se sabe.
Mas também é importante
não passar da hora…
Quem sabe a hora é agora?
A vida é um marco
que deixa marcas indeléveis.
– Por que tanto mistério, Senhor?
Mas tenho eu o direito de perguntar?…
E Jó disse a Deus…
Disse o quê?
Não era necessário dizer.
O Autor de tudo,
inexplicável algoz de todos,
perscruta os corações,
sonda os rins.
Senhor, não entendo.
Também nunca entendi
– será que é para entender? –
teu Filho crucificado.
Talvez deva chorar
sobre meu egoísmo,
meu individualismo,
minha omissão.
Talvez não tenha compartilhado
plenamente,
totalmente,
os onze anos de sua companhia.
Remorso?
E quem não o sente?
Ele era criança
e eu me sentia adulto.
Pobres adultos!
E agora ele se vai.
Colégio Militar interno.
Disseram que o internato ia acabar.
Mas não acabou.
Um internato diferente do meu tempo,
mas sempre internato.
Foi ele que assim o quis.
Aos onze anos
não o vejo mais como criança.
Mas também não é adulto.
Seu coração bate forte, destemido.
O meu é que está dilacerado.
De sua mãe, nem se fale!
Sua irmãzinha,
esta, sim, é criança.
Sente a dor,
mas não sente as dores do mundo.
– Senhor,
uma coisa te peço:
Se não tiver palavras e atos
para encorajar,
que pelo menos minha fraqueza
não contamine os fortes.
Que ele seja feliz!
Eu,
mamãe,
sua irmãzinha,
semi-órfãos de seu convívio,
seguremo-nos as mãos.
A vida continua.

NÃO ACREDITO Monólogo da Descrença

Eu não acredito no Brasil enquanto houver tantos marajás e maranis do serviço público, nos três poderes e nos três níveis, municipal, estadual e federal.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver supersalários para uma elite do serviço público, além de tantos penduricalhos a encherem contracheques de cima a baixo.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver foro privilegiado e imunidade parlamentar, sinônimos de impunidade.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver aposentadorias precoces, depois de tão pouco tempo e de tão elevados proventos para as elites do serviço público, nos três níveis.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver tanta desigualdade social, tamanhas corrupções institucionalizadas, tantos descamisados.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver obras inacabadas, mal acabadas, superfaturadas, falta de atendimento decente à saúde pública, escolas insuficientes e, se existentes, sem manutenção e sem recursos alocados.

Eu não acredito no Brasil enquanto não se der o devido valor aos professores, ao pessoal da área da saúde e da segurança pública, à cultura.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver estradas esburacadas, transporte público desumano, vazamentos de rejeitos com todas as suas nefastas consequências para a vegetação e para o ser humano.

Eu não acredito no Brasil enquanto os ministros do STF não forem escolhidos por concurso e histórico de vida de conduta ética.

Eu não acredito no Brasil enquanto rios dantes navegáveis, hoje cloacas, não não forem recuperados

Eu não acredito no Brasil enquanto madeireiros irresponsáveis desmatarem indiscriminadamente nossas matas visando ao lucro ilimitado.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver tantos motoristas a serviço de representantes públicos, auxílio-moradia, carro oficial, combustível, seguranças a fartar, cabeleireiros de montão, engraxates, chusmas de assessores, propina.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver brigas partidárias e ideológicas e o povo for considerado apenas um mero detalhe.

Eu não acredito no Brasil enquanto houver rompimento de barragens soterrando centenas de pessoas, animais e plantas deixando flora e fauna devastadas, e ninguém é punido.

Eu não acredito… ?!

Perdão, Senhor!

Confiteor!…

Amar é…

não descrer.

PARA MEDITAR…

Para desvendar o universo há que ter a persistência de um cientista.
Para sentir o mundo há que ter alma de poeta.
Para perscrutar os rins e os corações há que ser Deus.
Para subir ao alto das montanhas há que ter alma de alpinista.
Para captar a afinação do mundo há que ter alma de artista.
Para suportar as dores há que ter resignação.
Para viver bem é preciso ter fé na vida, estranha mania de acreditar.
Para ligar o céu e a terra é preciso ser ponte.
Para conciliar a dor e a alegria é preciso ter manha.
Para conhecer o outro é preciso conhecer-se a si mesmo.
Para descobrir todas as cores é preciso transpor o arco-íris.
Para fazer alguma coisa na vida é preciso ter sonho sempre.
Para mover o mundo é preciso uma alavanca e um ponto de apoio.
Para vencer a ambição é preciso moderação.
Para colher é preciso plantar.
Para abrir caminho é preciso andar.
Para abrir a mente é preciso estudar, ouvir e dialogar.
Para ver o sol nascer é preciso madrugar.
Para contemplar o luar há que olhar as estrelas.
Para acertar o alvo é preciso não açoitar o ar.
Para ser político há que pensar no povo da dita e desdita democracia.
Para ser crítico há que analisar o trabalho que deu para fazer.
Para ser justo é preciso não posar de feitor de obras feitas.
Para ser religioso há que respeitar o não religioso.
Para dar palpite há que ancorar o ponto de vista.
Para ser professor há que aprender e de repente ensinar.
Para ser pai ou mãe não há apenas que ter filhos: é preciso ser.
Para ser é preciso não ter em demasia.
Para mandar é preciso saber obedecer.
Para entender a vida é preciso soletrar: v-i-d-a.
Para voar é preciso ter asas… e querer.
Para contemplar a paisagem é preciso horizonte.
Para orar é preciso fazer da vida uma oração.
Para enfrentar abrolhos é preciso abrir os olhos.
Para ver é preciso ter olhos de ver.
Para rever conceitos desconstruir é preciso.
Para ficar extenuado basta não fazer nada…
Olhe! Pare!
Para parar é preciso frear…

PONTO E VÍRGULA

O uso correto da vírgula [,] é difícil; já o do ponto e vírgula [;] …

Luiz Fernando Veríssimo declarou que jamais havia usado um ponto e vírgula e que esse nunca lhe fizera falta. Usá-lo é um sinal, além de pontuação, de refinamento, encantamento, glamour. Lê-se, em Mário Quintana: “Que moça culta a Maria Eduarda: ela usa ponto e vírgula”. Na verdade, é chique usar ponto e vírgula, mas, para empregá-lo corretamente, só mesmo revisitando Machado de Assis.

Costuma-se definir ponto e vírgula como sinal de pontuação que indica uma pausa mais forte que a da vírgula e menos forte que a do ponto final. Seria o mesmo que dizer, em termos musicais, que a pausa de semínima dura o dobro da de colcheia, bem como a metade da mínima. Se for possível estabelecer uma relação da pausa musical com a da entonação, a pausa de colcheia corresponderia à vírgula, a pausa de semínima ao ponto e vírgula e, finalmente, a pausa de mínima ao ponto final. Com efeito, em música, pausa é cada um dos sinais gráficos que indicam o valor, isto é, a duração dos silêncios de um trecho musical e aos quais correspondem as notas.

Os gestos do maestro, batuta na mão, acenam para esses detalhes. Aliás, por falar em música, os sinais de pontuação têm tudo a ver com a entonação a partir da escrita, assim como uma partitura indica notas e pausas correspondentes. Cada nota é representada pelo seu sinal gráfico convencional, que representa, ao mesmo tempo, a altura (dó, ré, mi, fá, sol, lá, si) e a duração de um som musical (breve, semibreve, mínima, semínima, colcheia, semicolcheia, fusa, semifusa). A cada nota corresponde um silêncio em um peça de música, sendo a pausa a notação do silêncio.

Não sendo ponto final, em enumerações, um ponto e vírgula indica que sempre cabe mais um item. Otto Maria Carpeaux escreveu ensaios; Carlos Drummond, poesias. Do ponto de vista melódico, o ponto e vírgula representa uma pausa, pois o show deve continuar.

“BOOKS FOR A CHANGE”

Beatriz, minha neta, mora nos Estados Unidos. Há poucos anos ela veio ao Brasil e, em Campinas, na companhia da avó materna foi a uma creche levando presentes de aniversário que o irmãozinho havia ganhado. Acostumada em San Diego a devorar livros, percebeu que a creche não dispunha de livros infantis para elas folhearem e ouvirem histórias lidas ou contadas pelas professoras. Daí surgiu a ideia de se criar uma organização não governamental, www.booksforachange.org, com o fim de doar livros a escolas, creches e clínicas infantis carentes. “Livros para uma transformação” se destina, então, a proporcionar a crianças carentes entretenimento e gosto pela leitura.

Projeto genial, fantástico, uma maneira correta de ajudar crianças nessa idade. Através dessa ONG, que vive de doações, Bia e seus colaboradores adquirem livros e repassam uma média de 40 livros infantis, e uma estante baixinha, própria para os baixinhos, em cada instituição. Vale a pena conhecer esse projeto, descrito em detalhes na web. Quem, representando a instituição, estiver interessado em receber essa doação, que não tem absolutamente caráter eleitoreiro nem se caracteriza como um “pacote de bondade”, consulte o site e faça contato. É um trabalho sério, promocional, e de grande alcance, que merece ser acolhido, abraçado e incentivado.

Estamos orgulhosos de nossa neta, felizes com a sua iniciativa e por levar à prática, por meio de providências concretas, um projeto de amplitude internacional. A prefeitura de Sertãozinho, no estado de S. Paulo, por exemplo, firmou parceria com Beatriz, nome que significa aquela que faz os outros felizes. Junte-se a nós! As boas causas visando ao bem merecem ser apoiadas. Esse é um trabalho extraordinário: o livro é alimento da mente. Com gravuras então… A criançada adora!

MORRO DE AMORES PELO MEU PAÍS?

Conde Afonso Celso, publicou, em 1900, o livro Por que Me Ufano do meu País. Popularizou-se o termo ufanismo, atitude, posição ou sentimento dos que, influenciados pelo potencial das riquezas brasileiras, pelas belezas naturais do País, além de outros motivos, dele se vangloriam desmedidamente. Falar nesse ufanismo, hoje em dia, parece totalmente fora de moda.

Etimologicamente, nação (nacionalidade) designa o lugar de nascimento. País ou pátria, “terra patrum”, é o território dos pais, dos antepassados, terra-mãe: “Patriae nomen dulce est” (Cícero): o nome da pátria é doce. “Dulce et decorum est pro patria mori” (Horácio): é doce e honroso morrer pela pátria. Definir o que seja nação é um desafio. “Definitio periculosa”, difícil, desafiante. Trata-se de um conceito complexo, que envolve um feixe de variáveis.

Mas, sem dúvida, existe um nexo, um liame entre a pessoa humana e sua região. Independentemente de determinismo geográfico, vale indagar: “Não fazem estes céus, águas e serra, uma parte de mim e eu parte deles?” É o que expressa Gonçalves Dias, em Canção do Exílio: “As aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá”. Também o expressam o Hino Nacional e a Canção do Expedicionário.

Patriotismo não há mais. Prevalece a dicotomia institucionalizada: esquerda e direita, esquerda ou direita, mas, no fundo, o que se pretende às escâncaras é o “pudê”. Adeptos do mote daquele cara da escolinha do professor Raimundo: Eles querem é “pudê”. Urge desprendimento, despojamento, patriotismo enfim. Não faz sentido, além de outras benesses, uma aposentadoria régia. Esse é o grande nó da Reforma da Previdência. Só os privilegiados não percebem.

Tolerância mútua é atitude essencial para a convivência pacífica entre grupos ideologicamente diversos, tanto do ponto de vista político, religioso, filosófico, esportivo, como de gosto. Finalmente, patriotismo é pôr em prática o mandamento constitucional: Todos são iguais perante a Lei.

NO PRINCÍPIO…

Onde tudo começa. Diz Mia Couto “que é verdade: não somos nós que estamos a andar. É a estrada”. “The grand adventure is about to begin…” A vida é feita de degraus alcançados e de graus conquistados. Princípio do Evangelho de São João: No princípio era o Verbo. Sem dúvida, no princípio do Novo Testamento, uma menção ao princípio ao Livro do Gênesis: No princípio criou Deus os céus e a terra. “Fiat lux!” E a luz, de que depende a vida na terra, foi feita.

Para caminhar, dar o primeiro passo é preciso. Para nascer, semear é preciso. Mesmo o que é nativo. Segundo o princípio “ex nihilo nihil fit”, do nada nada se faz, em latim. Nada surge do nada. A frase é atribuída ao filósofo grego Parmênides. Opõe-se à teoria da geração espontânea ou abiogênese [a+bi(o)+gênese}, suposta formação de organismo vivo com base em matéria não viva.

Todo conhecimento novo, no seu processamento, supõe algum requisito, um bê-á-bá de noções preliminares naquele assunto. A própria figura do insight de compreensão aparentemente repentina, em geral intuitiva, pode provir de uma maturação lenta. O êureca de Arquimedes de Siracusa está no aoristo, um tempo histórico, “sui generis”, do grego, que significa procurei até achar definitivamente, fruto de incessante busca de solução para o problema. Heurística, literalmente, é a arte de encontrar.

Consta que, quando o pesquisador Arquimedes entrou numa banheira com água, observou que o nível da água subiu quando ele entrava. O problema, apresentado pelo rei Hierão, consistia em saber o volume de ouro em sua coroa. Conclusão: para medir o volume da coroa bastava mergulhar a coroa e calcular o volume de água deslocado. Dizem que Arquimedes saiu correndo, nu, pelas ruas e gritando: Descobri! Tal a sua euforia.

Quanto à intuição, se eu disser que a mulher é, por natureza, intuitiva, eu estou citando a fonte: sua natureza. Da mesma forma quando se fala em dom, talento, nível de inteligência. Uns mais, outros menos…

Invejoso, Eu?

Inveja. Do latim, invidia. Desagrado pelo talento ou sorte de outrem. Sentimo-nos infelizes com o sucesso alheio e somos tomados pelo desejo ardente de usurpá-lo. A palavra significa também o objeto da inveja: “Era ele a inveja dos outros passistas, pela agilidade e elegância dos gestos.” Diz-se também da admiração: Jorge Amado tem sido alvo de grande admiração. Já o ciúme doentio consiste no amor excessivo do próprio bem. Na inveja ainda não temos ou não somos. No ciúme, temos medo de que tomem de nós.

Emulação, sentimento louvável, em si, quando nos leva a imitar, a igualar e, se possível, superar, mediante competição leal, as qualidades do nosso próximo. Juridicamente, emulação é um lance de rivalidade que leva alguém, abusando de seu direito, recorrer à justiça, com sentimentos sádicos. Despeito é um desgosto mesclado de raiva, provocado por uma decepção ou pelo amor-próprio ferido.

Argumento “ad invidiam”: apelação ao sentimento de inveja. Visa envenenar, fomentar a discórdia, frequentemente por meio de mentiras, intrigas, fofocas e mexericos, “fake news”: nas redes sociais, em família, no trabalho, entre famosos. Pessoa intrigante, implicante, picuinha, cricri, disposta a interpretar mal a fala dos outros. O recurso à inveja só pode ser obra de gente mal resolvida. Devido ao sentimento de inveja, provocam-se, não raro, desavenças, separação de casais, mortes. Variável interveniente a ser considerada no caso dos denunciantes invejosos.

A inveja integra a lista dos sete pecados capitais: soberba, avareza, luxúria, gula, ira, preguiça e, finalmente, inveja. Como a palavra pecado anda desgastada, apesar de tantos pecados por aí afora, alguns preferem dizer vícios capitais, tendências desordenadas das quais, como de uma fonte, surgem hábitos maus, da mesma natureza. O primeiro fratricídio da história foi cometido por inveja. Caim invejava seu irmão Abel. Na fantasia, Cinderela também foi alvo de inveja.